A
África dos grandes reinos e impérios
Vamos falar sobre quatro dos
grandes reinos africanos: Gana, Mali, Congo e Benin, mas antes faz-se
necessário conhecer um pouco mais do retrato físico deste
continente onde a diversidade social, política e cultural
ocorreu graças à extensão do continente e suas características
geográficas.
A África é cercada a
nordeste pelo mar Vermelho, ao norte pelo Mediterrâneo, a oeste pelo
oceano Atlântico e a leste pelo oceano Índico. Em termos
geográficos, suas principais marcas são o deserto do Saara ao norte
que divide o continente, o deserto do Calahari a sudoeste, a floresta
tropical do centro do continente, as savanas, ou campos de vegetação
esparsa e rasteira, que separam áreas desérticas de áreas de
florestas, e algumas terras altas, como aquelas nas quais nascem os
rios que formam o Rio Nilo. Os rios são os meios de comunicação
mais importantes do continente.
Essas diversidades
naturais levaram estudiosos a falar de duas Áfricas, demarcadas pelo
deserto do Saara: a África saariana que se localiza ao norte do
continente e estende-se pela região que vai do atual Egito até
Marrocos e a África subsaariana que estende-se do Saara até o Cabo
da Boa Esperança, ao sul do continente, como podemos ver no mapa
abaixo que representa a atual divisão territorial da África.
O
reino de Gana: a “terra do ouro”
Localizado a oeste do
continente africano, em uma zona chamada Sael e ao sul do Deserto do
Saara, região também conhecida como África Subsaariana, o Reino
de Gana cresceu a partir do ano 300 e teve seu apogeu entre os
séculos IX e X, quando dominou os povos vizinhos e ocupou uma faixa
territorial maior do que ocupa nos dias de hoje.
O rei recebia o título
de gana e era visto como elo entre os deuses e os homens. Ele
liderava um poderoso exército e ocupava o topo de uma sociedade
hierarquizada. Sacerdotes, nobres e funcionários cuidavam da
administração do reino.
A população se
dedicava à agricultura e à criação de gado, mas o comércio era
a principal atividade econômica do reino. O Reino de Gana
controlava as rotas de comércio que atravessavam o Saara e chegava
às cidades e aos portos do norte África. Esse comércio era feito
por meio de caravanas de camelos, pois esses animais conseguem viver
com pouca quantidade de água.
O principal artigo
transportado era o ouro retirado das minas do sul de Gana, isso
explica por que seus reis eram chamados pelos povos do norte de
“senhores do ouro”. Durante o domínio português, Gana era
chamada de Costa de Ouro, por causa da grande quantidade de jazidas
de ouro nessa região. Atualmente, ao lado da exportação de cacau
e de madeira, a exploração de ouro ainda é uma das atividades
econômicas mais importantes do país. Gana é um dos maiores
produtores de ouro do mundo.
Também se
comercializava o sal, extraído das salinas do litoral ou das
jazidas no deserto. Do norte vinham produtos manufaturados, tecidos
europeus asiáticos, barras de cobre, contas de vidro e tipos
diferentes de arma que abasteciam as sociedades africanas.
O
império do Mali: o “lugar onde o senhor reside”
Este império
desenvolveu-se entre os séculos XIII e XVI, período em que impôs
sua hegemonia sobre a bacia do Rio Níger. Constituído pela atual
República de Mali e algumas regiões dos atuais Senegal e Guiné, o
reino do Mali, no século XIV, expandiu-se por meio da anexação
das cidades de Tombuctu, Gao e Djenne que foram importantes cidades,
centros de troca e de concentração de pessoas, graças à rede de
rios que fertilizava as terras e facilitava o transporte na região.
O Mali era um império
poderoso, pois controlava o comércio transaariano e as rotas
caravaneiras que se dirigiam para as principais cidades do reino,
localizados em sua maioria às bordas do Rio Níger, semelhante a
rota comercial de Gana. O comércio e principalmente as taxas sobre
o tráfico de ouro, sal, escravos, marfim, noz-de-cola e outros
produtos eram fundamentais para a manutenção do Estado, da corte e
do mansa. O artesanato era bastante desenvolvido. Cada grupo de
artesãos tinha seu representante junto ao imperador. Os governantes
do Mali recebiam o título de mansa. Viajantes árabes relatavam
histórias de alguns governantes que se tornaram famosos, como
Sundiata, herói fundador que reinou de 1230 a 1255, e Mansa Musa,
que governou entre 1312 e 1337.
A
cidade de Tombuctu destacou-se como grande centro cultural do
continente africano, onde havia vastas bibliotecas, madrassas
(universidades islâmicas) e magníficas mesquitas que é o lugar
onde a comunidade muçulmana se reúne para tratar de todas as
questões que lhe interessa, questões religiosas, sociais, políticas
e locais e também para rezar. Além disso, a cidade passou a ser o
ponto de encontro de poetas, intelectuais e artistas da África e do
Oriente Médio. Mesmo após o declino do império, Tombuctu
permaneceu como um dos principais pólos islâmicos da África
subsaariana. Em 1988, a cidade de Timbuctu foi declarada patrimônio
mundial pela UNESCO.
Vale
destacar que as 150 escolas que existiam em Tombuctu eram muito
diferentes das escolas medievais européias. Não possuíam uma
administração central, registros de estudantes ou cursos pré-
determinados. Eram formadas por diversas faculdades independentes. Os
estudantes se associavam a um único professor, o objetivo do ensino
era transmitir os ensinamentos do Alcorão, livro sagrado do
islamismo.
É importante mencionar
que o império do Mali e também de Gana assimilaram a cultura e a
religião islâmica. Maomé que viveu entre Meca e Medina, de 570 a
632, foi fundador do Islã, que significa submissão a um deus, única
e onipotente. A religião vinha acompanhada de maneiras de viver e de
governar próprias do mundo árabe, chamadas de muçulmanas, sobre
este assunto estudaremos com mais detalhes mais adiante.
Reino
do Congo: “saudações ao manicongo”
Fundado
no século XIV, o reino do Congo abrangia grande extensão da África
centro-ocidental e se compunha de diversas províncias, governado por
um rei que recebia o título de Manicongo. Hoje a região que fazia
parte do reino Congo, recebe o nome de Republica Democrática do
Congo.Os habitantes do reino do Congo organizavam-se em vários clãs.
Esses clãs eram compostos de pessoas que acreditavam descender de um
mesmo antepassado.
A base da economia do
Congo era a agricultura, pastoreio e o comércio. O comércio no
território do Congo era intenso, os comerciantes congoleses lucravam
com a comercialização de tecidos, sal, metais e derivados de
animais, como o marfim. O comércio poderia ser à base de trocas ou
com moedas (conchas chamadas de nzimbu) encontradas na região de
Luanda em Angola.
O manicongo, cercado de
seus conselheiros, controlava o comércio, o trânsito de pessoas,
recebia impostos, exercia a justiça, buscava garantir a harmonia da
vida do reino e das pessoas que viviam nele.
Os limites do reino eram
traçados pelo conjunto de aldeias que pagavam tributos ao poder
central, devendo fidelidade a ele, recebendo proteção, tanto para
assuntos deste mundo como para os assuntos do além, pois manicongo
também era responsável pelas boas relações com os espíritos e os
ancestrais.
Em 1483 iniciou no reino
do Congo o contato com os portugueses.
Reino
do Benin: “os feitos de obá”
Há indícios de que este
reino tenha se desenvolvido entre os séculos XII e XIII, onde hoje
estão Nigéria e Camarões. Desde cedo, essa região passou por um
processo de urbanização, e as cidades se converteram em reinos. Sua
localização favorecia o encontro de mercadores.
A principal atividade
econômica do reino de Benim era o comércio de sal, peixe seco,
inhame, dendê, feijão, animais de criação, o cobre, produto raro,
só possível para os mais poderosos, ou seja , os mais ricos.
Produtos como pimenta, marfim, tecidos e escravos eram
comercializados ativamente com os reinos de Ifê e o reino Iorubá.
Para prevenir a redução da população nativa, o governo proibiu a
exportação de escravos masculinos e os importou da África
ocidental para comerciá-los com os europeus a partir do século XVI.
Cronistas descreveram a
cidade do Benin com grandes muralhas e um palácio decorados com
placas de latão presas às paredes. Nessas placas, era contada a
história do reino: feitos do obá (titulo do principal chefe do
reino que se tornou o supremo poder na região), as caçadas, as
guerras e os primeiros contatos com os portugueses, por volta de
1485. A chegada dos europeus foi registrada pelos artistas africanos
com imagens esculpidas nessas placas e em pequenas estatuetas de
marfim.
O reino de Benin se
desintegrou no século XIX, sob o domínio dos ingleses.
O
contato entre os reinos africanos
A interação destes
reinos acima estudados, e demais reinos africanos ocorreu através do
comércio, ora através de relações pacificas , ora conflituosas,
como foi o caso do reino de Gana que no século XIII foi governado
por Sundiata Keita, rei do Império do Mali.
Quando os europeus
começaram a explorar a costa africana, no século XV, encontraram
diferentes povos, com línguas, tradições e costumes distintos. O
contato dos europeus com essa diversidade de etnias, por meio da
exploração das terras africanas e do escravismo, produziu um
intercâmbio cultural que se pode notar em quase todo o planeta. No
Brasil podemos reconhecer a África na capoeira, embalada pelo
berimbau; a culinária, enriquecida com o vatapá, o caruru e outros
quitutes; as influências musicais do batuque e a ginga do samba e
dos instrumentos como cuícas, atabaques e agogôs. Estamos ligados
ao continente africano de forma indissolúvel.
Roteiro
de Atividades:
- Leia este texto com atenção, grife as palavras desconhecidas e faça o vocabulário no caderno.
- Aponte as características semelhantes entre os reinos africanos estudados acima.
- A distância e o desconhecimento sobre a África levaram à divulgação de ideias erradas sobre os povos africanos. Você conhece nos dias atuais outras afirmações que revelam o preconceito contra algum povo? Qual? Comente a respeito.
África de todos nós
Desde 2003, a cultura africana faz parte do currículo. Descubra com seus alunos a riqueza das ciências, das tecnologias e da história dos povos desse continente
Os
diversos povos que habitavam o continente africano, muito antes da
colonização feita pelos europeus, eram bambambãs em várias áreas:
eles dominavam técnicas de agricultura, mineração, ourivesaria e
metalurgia; usavam sistemas matemáticos elaboradíssimos para não
bagunçar a contabilidade do comércio de mercadorias; e tinham
conhecimentos de astronomia e de medicina que serviram de base para a
ciência moderna. A biblioteca de Tumbuctu, em Mali, reunia mais de
20 mil livros, que ainda hoje deixariam encabulados muitos
pesquisadores de beca que se dedicam aos estudos da cultura negra.
Infelizmente,
a imagem que se tem da África e de seus descendentes não é
relacionada com produção intelectual nem com tecnologia. Ela
descamba para moleques famintos e famílias miseráveis, povos
doentes e em guerra ou paisagens de safáris e mulheres de cangas
coloridas. "Essas ideias distorcidas desqualificam a cultura
negra e acentuam o preconceito, do qual 45% de nossa população é
vítima", afirma Glória Moura, coordenadora do Núcleo de
Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília (UnB).
Negros são parte da nossa identidade, o pouco caso com a cultura africana se reflete na sala de aula. O segundo maior continente do planeta aparece em livros didáticos somente quando o tema é escravidão, deixando capenga a noção de diversidade de nosso povo e minimizando a importância dos afro-descendentes. Por isso, em 2003, entrou em vigor a Lei no 10.639, que tenta corrigir essa dívida, incluindo o ensino de história e cultura africanas e afro-brasileiras nas escolas. "Uma norma não muda a realidade de imediato, mas pode ser um impulso para introduzir em sala de aula um conteúdo rico em conhecimento e em valores", diz Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, membro do Conselho Nacional da Educação e redatora do parecer que acrescentou o tema à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Negros são parte da nossa identidade, o pouco caso com a cultura africana se reflete na sala de aula. O segundo maior continente do planeta aparece em livros didáticos somente quando o tema é escravidão, deixando capenga a noção de diversidade de nosso povo e minimizando a importância dos afro-descendentes. Por isso, em 2003, entrou em vigor a Lei no 10.639, que tenta corrigir essa dívida, incluindo o ensino de história e cultura africanas e afro-brasileiras nas escolas. "Uma norma não muda a realidade de imediato, mas pode ser um impulso para introduzir em sala de aula um conteúdo rico em conhecimento e em valores", diz Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, membro do Conselho Nacional da Educação e redatora do parecer que acrescentou o tema à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
A
cultura africana oferece elementos relacionados a todas as áreas do
conhecimento. Para Iolanda de Oliveira, professora da Faculdade de
Educação da Universidade Federal Fluminense, se a escola não
inclui esses conteúdos no planejamento, cada professor pode colocar
um pouco de África em seu plano de ensino: "Não podemos
esperar mais para virar essa página na nossa história",
enfatiza. Antes de saber como usar elementos da cultura africana em
cada disciplina, vamos analisar alguns aspectos da história do
continente e os motivos que levaram essas culturas a serem excluídas
da sala de aula.
O
ensino de História sempre privilegiou as civilizações que viveram
em torno do Mar Mediterrâneo. O Egito estava entre elas, mas
raramente é relacionado à África, tanto
que, junto com outros países do norte do continente, pertence à chamada África Branca, termo que despreza os povos negros que ali viveram antes das invasões dos persas,
gregos e romanos.
A pesquisadora Cileine de Lourenço, professora da Bryant University, de Rhoad Island, nos Estados Unidos, atribui ao pensamento dos colonizadores boa parte da origem do preconceito: "Eles precisavam justificar o tráfico das pessoas e a escravidão nas colônias e para isso ‘animalizaram’ os negros". Ela conta que, no século 16, alguns zoológicos europeus exibiam negros e indígenas em jaulas, colocando na mesma baia indivíduos de grupos inimigos, para que brigassem diante do público. Além disso, a Igreja na época considerava civilizado somente quem era cristão.
que, junto com outros países do norte do continente, pertence à chamada África Branca, termo que despreza os povos negros que ali viveram antes das invasões dos persas,
gregos e romanos.
A pesquisadora Cileine de Lourenço, professora da Bryant University, de Rhoad Island, nos Estados Unidos, atribui ao pensamento dos colonizadores boa parte da origem do preconceito: "Eles precisavam justificar o tráfico das pessoas e a escravidão nas colônias e para isso ‘animalizaram’ os negros". Ela conta que, no século 16, alguns zoológicos europeus exibiam negros e indígenas em jaulas, colocando na mesma baia indivíduos de grupos inimigos, para que brigassem diante do público. Além disso, a Igreja na época considerava civilizado somente quem era cristão.
Uma
das balelas sobre a escravidão é a ideia de que o processo teria
sido fácil pela condição de escravos em que muitos africanos
viviam em seus reinos. Essa é uma
invenção que não passa de bode expiatório: a servidão lá acontecia após conquistas internas ou por dívidas - como em outras civilizações. Mas as pessoas não eram
afastadas de sua terra ou da família nem perdiam a identidade.
invenção que não passa de bode expiatório: a servidão lá acontecia após conquistas internas ou por dívidas - como em outras civilizações. Mas as pessoas não eram
afastadas de sua terra ou da família nem perdiam a identidade.
Muitas
vezes os escravos passavam a fazer parte da família do senhor ou
retomavam a liberdade quando a obrigação era quitada com trabalho.
Outra mentira é que seriam povos acomodados: os negros escravizados
que para cá vieram revoltaram-se contra a chibata, não aceitavam as
regras do trabalho nas plantações, fugiam e organizavam
quilombos.
A
dominação dos negros pelos europeus se deu basicamente porque a
pólvora não era conhecida por aquelas bandas - e porque os
africanos recebiam bem os estrangeiros,
tanto que eles nem precisavam armar tocaias: as famílias africanas costumavam ter em casa um quarto para receber os viajantes e com isso muitas vezes davam abrigo ao
inimigo. Durante mais de 300 anos foram acaçambados cerca de 100 milhões de mulheres e homens jovens, retirando do continente boa parte da força de trabalho e rompendo com séculos de cultura e de civilização.
tanto que eles nem precisavam armar tocaias: as famílias africanas costumavam ter em casa um quarto para receber os viajantes e com isso muitas vezes davam abrigo ao
inimigo. Durante mais de 300 anos foram acaçambados cerca de 100 milhões de mulheres e homens jovens, retirando do continente boa parte da força de trabalho e rompendo com séculos de cultura e de civilização.
Nesta
reportagem, deixamos de lado de propósito a capoeira, embalada pelo
berimbau; a culinária, enriquecida com o vatapá, o caruru e outros
quitutes; as influências musicais do batuque e a ginga do samba e
dos instrumentos como cuícas, atabaques e agogôs. Preferimos
mostrar conteúdos ligados às ciências sociais e naturais, à
Matemática, à Língua Portuguesa e Estrangeira e a Artes, menos
comuns em sala de aula, para você rechear a mochila de conhecimentos
dos alunos sobre a África
Lendas e heróis africanos
Palavras de origem africana, literatura e contação de histórias com familiares afro-descendentes
Para
mostrar a influência dos falares africanos no Brasil, você pode
usar as palavras de origem banta destacadas nesta reportagem, apenas
um tiquinho em centenas já incorporadas ao nosso vocabulário.
Yeda
Pessoa de Castro, professora da Faculdade de Educação da
Universidade Federal da Bahia, sugere ainda que você leve para sala
de aula lendas africanas e histórias que tratem de diversidade.
A
professora Zuleica Maria Bispo, da Escola Municipal de Educação
Básica Antonio Stella Moruzzi, em São Carlos (SP), usa livros como
Menina Bonita do Laço de Fita, de Ana Maria Machado, O
Pássaro-da-Chuva, de Kersti Chaplet, e o gibi Zumbi dos Palmares
(editado pela secretaria de Educação da cidade) para atividades de
leitura e escrita.
Familiares
dos alunos afro-descendentes podem ser convidados para contar
histórias de sua vida, informações que serão transformadas em
texto.
Reggae e biografias
Sugestões para trabalhar a cultura africana nas aulas de Inglês
Algumas
escolas de comunidades quilombolas prevêem no planejamento
atividades para resgatar a língua de seus ancestrais. Mas, mesmo
quando o idioma a ser aprendido é o inglês ou o espanhol, é
possível inserir a cultura africana e afro-descendente.
Cláudia
Alexandra Santos, professora de 5ª a 8ª série do Colégio
Estadual Marquês de Maricá, em Salvador, leva para suas turmas
letras de músicas do afro-descendente jamaicano Bob Marley e de
outros cantores negros e textos em inglês sobre a vida de
lideranças como os americanos Malcom X e Martin Luther King.
Para
Vilma Reis, coordenadora executiva do Centro de Estudos
Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, a introdução da
cultura negra no ensino de língua estrangeira deixa o aprendizado
mais próximo dos afro-descendentes.
O que foi o Apartheid na África do Sul?
Nelson
Mandela deixou a prisão há 20 anos, no dia 11 de fevereiro de 1990.
A liberdade do líder foi o mais forte sinal do fim do regime de
segregação racial na África do Sul, o apartheid.
Colonizada
a partir de 1652 por holandeses e tendo recebido imigrantes de outras
partes da Europa e da Ásia, a África do Sul tornou-se, em 1910, uma
possessão britânica. Desde a chegada dos primeiros europeus, há
mais de três séculos, a história do país africano, que será a
sede da Copa do Mundo em 2010, foi marcada pela discriminação
racial, imposta pela minoria branca.
Como
protesto a essa situação, representantes da maioria negra fundaram,
em 1912, a organização Congresso Nacional Africano (CNA) à qual
Nelson Mandela, nascido em 1918, se uniu décadas depois. No CNA,
Mandela se destacou como líder da luta de resistência ao apartheid.
O pai
de Mandela era um dos chefes da tribo Thembu, da etnia Xhosa e, por
isso, desde cedo, o garoto foi educado e preparado para assumir a
liderança de seu povo. "Ele recebeu o melhor da Educação de
sua tribo e foi iniciado em todos os rituais. Mas também teve o
melhor da Educação europeia, estudando em bons colégios",
explica Carlos Evangelista Veriano, professor de História da
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).
O
apartheid oficializou-se em 1948 com a posse do primeiro-ministro
Daniel François Malan, descendente dos colonizadores europeus -
também chamados de africâners. "Embora a história oficial
omita, sabemos que os ingleses foram os financiadores do apartheid,
já que o Banco da Inglaterra custeava todos os atos do governo
sul-africano", afirma Veriano.
Com o
novo governo, o apartheid foi colocado em prática, instituindo uma
série de políticas de segregação. Os negros eram impedidos de
participar da vida política do país, não tinham acesso à
propriedade da terra, eram obrigados a viver em zonas residenciais
determinadas. O casamento inter-racial era proibido e uma espécie de
passaporte controlava a circulação dos negros pelo país. "É
importante lembrar que essa política teve clara inspiração
nazista", diz o professor.
Embora
tenha sido preso diversas vezes antes, Mandela já cumpria pena desde
1963 quando recebeu a sentença de prisão perpétua. Porém, com o
passar dos anos, o mundo passou a se importar mais com a inadmissível
situação da África do Sul, que começou a receber sanções
econômicas como forma de pressão para acabar com o apartheid. Em
1990, com o regime já enfraquecido, Mandela foi solto, depois de 27
anos no cárcere. O governo, liderado por Frederik De Klerk, revogou
as leis do apartheid. Três anos depois, Mandela e Klerk dividiram o
Prêmio Nobel da Paz.
Em
1994, nas primeiras eleições em que os negros puderam votar,
Mandela foi eleito presidente do país. O filme
Invictus,
dirigido por Clint Eastwood, em cartaz atualmente nos cinemas, tem
como foco a história de Mandela (interpretado por Morgan Freeman)
logo que ele assume a presidência. A obra mostra como o líder
governou não com a intenção de se vingar dos brancos, mas sim de
realmente transformar o país em uma democracia para todos.
Literatura africana na sala de aula
Aproveite a obra de cinco escritores africanos – Mia Couto, Pepetela, Ondjaki, Nadine Gordimer e Naguib Mahfouz – para ensinar mais sobre a cultura e a história da África aos aluno
É
provável que você já tenha dito aos seus alunos como ler é
importante e prazeroso. Nessas aulas deve ter destacado que o hábito
permite aprender como vivem outros povos e quais são seus costumes e
tradições. Isso não é diferente com a produção literária
africana, rica em escritores que discutem e reescrevem a história
dos países onde nasceram.
Levar
estes nomes para a sala de aula respeita a Lei 10.639/03, que inclui
o ensino da História e Cultura Africana no currículo das escolas
brasileiras. Por meio das Orientações
e Ações para a Educação das relações étnico-raciais –
documento que indica atividades e temas para cada segmento de ensino
– o Ministério da Educação propõe que, muito mais do que
simplesmente cumprir a lei, o foco seja o estímulo a valores como
diversidade e apreciação da cultura negra.
A história da África em sala
Duas leis federais determinam o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena.
Veja como trabalhar esses conteúdos em aula
Até
bem pouco tempo atrás, o Brasil, conhecido internacionalmente por
sua diversidade cultural e pela mistura de raças que formam o seu
povo, não tinha as diferentes etnias representadas nos currículos
escolares do País. A situação mudou com duas leis, sancionadas nos
anos de 2003 e 2008, que tornaram obrigatório no Ensino Fundamental
e Médio o estudo da História e Cultura afro-brasileira e indígena.
O que
dizem as leis
A lei mais antiga 10.639/2003 não previa o ensino da cultura Indígena nas escolas brasileiras. O texto estabelece que o conteúdo programático inclua diversos aspectos da história e da cultura dos povos que formaram a população brasileira. "As políticas e programas que começaram a ser praticados desde então são fundamentais para valorizar a diversidade dentro das escolas e para incentivar mudanças nas práticas pedagógicas", afirma Viviane Fernandes Faria, Diretora de Políticas para Educação do Campo e Diversidade do Ministério da Educação (MEC).
Aspectos como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional foram incorporados aos currículos depois da aprovação da Lei 11.645. "Por meio do resgate da contribuição de negros e índios nas áreas social, econômica e política da história do Brasil, os professores podem desenvolver ações voltadas para a construção de uma escola multirracial", diz Sobrinho.
A lei mais antiga 10.639/2003 não previa o ensino da cultura Indígena nas escolas brasileiras. O texto estabelece que o conteúdo programático inclua diversos aspectos da história e da cultura dos povos que formaram a população brasileira. "As políticas e programas que começaram a ser praticados desde então são fundamentais para valorizar a diversidade dentro das escolas e para incentivar mudanças nas práticas pedagógicas", afirma Viviane Fernandes Faria, Diretora de Políticas para Educação do Campo e Diversidade do Ministério da Educação (MEC).
Aspectos como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional foram incorporados aos currículos depois da aprovação da Lei 11.645. "Por meio do resgate da contribuição de negros e índios nas áreas social, econômica e política da história do Brasil, os professores podem desenvolver ações voltadas para a construção de uma escola multirracial", diz Sobrinho.
A
proposta do MEC é incluir no currículo temáticas que façam os
alunos refletir sobre a democracia racial e a formação cultural
brasileira. "Só assim será possível romper com teorias
racistas e diminuir o preconceito", afirma Juliano Custódio
Sobrinho, professor de História da Universidade Nove de Julho, em
São Paulo. "Os educadores têm um papel fundamental nesse
processo, o de mostrar aos alunos que todas as raças presentes no
Brasil têm e tiveram importâncias iguais na formação da cultura
brasileira", diz.
Como trabalhar
Como trabalhar
Para
ajudar os professores a selecionar alguns aspectos que podem ser
trabalhados nas diferentes etapas de ensino no decorrer de todo o
ano, o MEC elaborou alguns materiais
de apoio que estão disponíveis para consulta no site oficial do
Ministério, assim como as Orientações e Ações para a Educação
das Relações Étnico-Raciais.
Abaixo, veja algumas sugestões de como e quando abordar alguns dos conteúdos relacionados à cultura afro-brasileira em diferentes etapas de ensino:
Educação Infantil
Abaixo, veja algumas sugestões de como e quando abordar alguns dos conteúdos relacionados à cultura afro-brasileira em diferentes etapas de ensino:
Educação Infantil
O
essencial: Apresentar a diversidade
Durante
o período em que frequentam a creche ou a pré-escola, as crianças
estão construindo suas identidades. Por isso, desde os primeiros
anos de escolaridade, os alunos já precisam entender que são
diferentes uns dos outros e que essa diversidade decorre de uma ideia
de complementaridade. "É função do educador ajudar as
crianças a lidar com elas mesmas e fortalecer a formação de suas
próprias identidades", explica Clélia Cortez, Coordenadora do
Programa Formar em Rede do Instituto Avisa Lá e selecionadora do
Prêmio Victor Civita. "Ele deve atuar como um verdadeiro agente
de promoção da diversidade", diz.
Para que isso aconteça, a creche precisa ser transformada em um ambiente de aprendizagem da diversidade étnico-racial, que estimule os pequenos a buscar suas próprias histórias e a conhecer as origens dos colegas. "Estimular a participação das crianças em atividades que envolvam brincadeiras, jogos e canções que remetam às tradições culturais de suas comunidades e de outros grupos são boas estratégias", diz Clélia. Segundo a educadora, a organização os espaços também deve valorizar a diversidade. Ações simples como pendurar imagens de personagens negros nas paredes, adquirir alguns livros com personagens de origens africanas, ter bonecos negros na brinquedoteca e passar filmes infantis com personagens negros para as crianças podem ajudar na formação de cidadãos mais conscientes e agentes no combate ao preconceito.
Do 1º ao 5º ano
Para que isso aconteça, a creche precisa ser transformada em um ambiente de aprendizagem da diversidade étnico-racial, que estimule os pequenos a buscar suas próprias histórias e a conhecer as origens dos colegas. "Estimular a participação das crianças em atividades que envolvam brincadeiras, jogos e canções que remetam às tradições culturais de suas comunidades e de outros grupos são boas estratégias", diz Clélia. Segundo a educadora, a organização os espaços também deve valorizar a diversidade. Ações simples como pendurar imagens de personagens negros nas paredes, adquirir alguns livros com personagens de origens africanas, ter bonecos negros na brinquedoteca e passar filmes infantis com personagens negros para as crianças podem ajudar na formação de cidadãos mais conscientes e agentes no combate ao preconceito.
Do 1º ao 5º ano
O
essencial: valorizar as culturas indígena e africana
No
Ensino Fundamental 1, os professores já podem levar para a sala de
aula algumas noções do que vem a ser a cultura afro-brasileira, com
base na realidade dos alunos. É o momento de falar sobre a
colonização portuguesa no país e traçar um paralelo com a
realidade social dos negros hoje. "Se o aluno entender o
processo histórico que desencadeou a desigualdade entre negros e
brancos, ele não vai reforçar preconceitos", diz Sobrinho.
Propor projetos e atividades permanentes que valorizem as culturas indígena e africana - como apresentações teatrais de histórias da literatura africana ou lendas indígenas -; trabalhar os elementos de ritmos como o samba e o maracatu nas aulas de Música; ou explorar alguns elementos da capoeira nas aulas de Educação Física são boas formas de abordar os conteúdos no decorrer do ano. "Apesar da inclusão do ensino da cultura afro-brasileira e indígena ter sido imposta por uma legislação, não é preciso forçar a barra para incluí-los nas aulas", explica Sobrinho. "Esses elementos sempre fizeram parte da cultura brasileira e não podem ser ensinados como se fossem conteúdos à parte, descontextualizado da realidade do nosso país", afirma ele.
Do 6º ao 9º ano
Propor projetos e atividades permanentes que valorizem as culturas indígena e africana - como apresentações teatrais de histórias da literatura africana ou lendas indígenas -; trabalhar os elementos de ritmos como o samba e o maracatu nas aulas de Música; ou explorar alguns elementos da capoeira nas aulas de Educação Física são boas formas de abordar os conteúdos no decorrer do ano. "Apesar da inclusão do ensino da cultura afro-brasileira e indígena ter sido imposta por uma legislação, não é preciso forçar a barra para incluí-los nas aulas", explica Sobrinho. "Esses elementos sempre fizeram parte da cultura brasileira e não podem ser ensinados como se fossem conteúdos à parte, descontextualizado da realidade do nosso país", afirma ele.
Do 6º ao 9º ano
O
essencial: discutir o preconceito
O
Ensino Fundamental 2 é o período ideal para o professor explicar
aos alunos que o Brasil foi um país escravocrata e que a abolição
da escravidão não veio acompanhada de um processo de inclusão dos
negros na sociedade brasileira. "No Brasil, a escravidão foi
abolida em 1888, porém, mantivemos o estigma da cor", afirma
Sobrinho. Por isso, promover debates sobre as causas do preconceito
contra os negros é fundamental, bem como ensinar os alunos a buscar
respostas no processo histórico brasileiro. "Os estudantes
precisam conhecer os motivos pelos quais os negros ainda lutam pela
igualdade de direitos e oportunidades", diz Sobrinho.
Nas aulas de Ciências, os professores podem trabalhar as teorias raciais do século 19, que queriam acabar com a miscigenação e pregavam a necessidade do branqueamento da população. "A ideia errônea da existência de uma ‘raça pura’ permitiu a legitimação do preconceito com relação à diversidade de raças e a crença em uma suposta superioridade da raça branca", diz Sobrinho.
Ensino Médio
Nas aulas de Ciências, os professores podem trabalhar as teorias raciais do século 19, que queriam acabar com a miscigenação e pregavam a necessidade do branqueamento da população. "A ideia errônea da existência de uma ‘raça pura’ permitiu a legitimação do preconceito com relação à diversidade de raças e a crença em uma suposta superioridade da raça branca", diz Sobrinho.
Ensino Médio
O
essencial: debater o preconceito de raça
Nesta
etapa os professores de Sociologia podem trabalhar o próprio
conceito de "raça", sempre com o objetivo de discutir a
valorização das diferentes manifestações culturais com base nas
representações do outro. A existência de cotas raciais nas
universidades públicas e os motivos pelos quais elas se fazem
necessárias no Brasil também podem gerar debates interessantes com
a turma. É uma boa oportunidade para esclarecer aos estudantes que
as cotas, por exemplo, fazem parte de um longo plano de ações que
visa incluir os negros dignamente na sociedade.
Muito mais do que leis que incentivem o combate ao preconceito racial, é fundamental que as mudanças da forma de ensinar a História e a Cultura afro-brasileira e indígena partam do engajamento, do aprendizado e do comprometimento pessoal dos educadores, professores e gestores escolares, que devem estar preocupados em construir uma política educacional igualitária, que prepare crianças e jovens para valorizar a diversidade e construir uma sociedade em que a democracia racial, de fato, se torne uma realidade.
Muito mais do que leis que incentivem o combate ao preconceito racial, é fundamental que as mudanças da forma de ensinar a História e a Cultura afro-brasileira e indígena partam do engajamento, do aprendizado e do comprometimento pessoal dos educadores, professores e gestores escolares, que devem estar preocupados em construir uma política educacional igualitária, que prepare crianças e jovens para valorizar a diversidade e construir uma sociedade em que a democracia racial, de fato, se torne uma realidade.
Referências
Bibliográficas:
BOULOS
Júnior, Alfredo. História: sociedade e cidadania, 7.ano. São
Paulo: FTD, 2009.(Coleção História: Sociedade & Cidadania)
PROJETO
ARARIBÁ: história/organizadora Editora Moderna; obra coletiva
concebida, desenvolvida e produzida pela Editora Moderna; editora
responsável Maria Raquel Apolinário. 2.ed. São Paulo: Moderna,
2007.
SOUZA,
Marina de Mello e. África e Brasil Africano. 2ed.São Paulo:
Ática,2007.
KI-ZERBO,
Joseph. História da África Negra.Vol.I.4ed.traducão Américo de
Carvalho.Publicações Europa-América,2009.
Nenhum comentário:
Postar um comentário