Especialistas apontam que é
preciso aproximar a didática dos conteúdos da disciplina
Da Redação do Todos Pela Educação
O desempenho dos estudantes nas avaliações externas
de matemática revela a necessidade do debate sobre as reais dificuldades de
ensino da matéria nas escolas brasileiras. Para especialistas entrevistadas
pelo Todos Pela Educação, um dos gargalos está na formação do professor.
Para Célia Maria Carolino Pires, ex-presidente da
Sociedade Brasileira de Educação Matemática e professora do Programa de Estudos
Pós-Graduados da área na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP), a maioria dos professores da disciplina não está bem preparada. “A
formação inicial dos professores polivalentes, que vão ensinar matemática às crianças
nos cinco primeiros anos do Ensino Fundamental, nos cursos de pedagogia,
praticamente não existe. E, quando algumas horas são dedicadas a isso,
geralmente são pouco aproveitadas”.
A consultora pedagógica da Fundação Victor Civita,
Priscila Monteiro, concorda e acrescenta que tanto os cursos de pedagogia como
as licenciaturas não incluem nos seus currículos as didáticas das matemáticas
que deveria ser a matéria prima dessa formação. “No senso comum, usamos o termo
‘didática’ como simples. Mas na verdade a didática é uma das relações mais
complexas que existem”, diz.
Parte do problema pode estar relacionada à falta de
diálogo entre os centros que estudam as práticas em sala de aula e os que
trabalham o conteúdo específico de matemática no Ensino Superior. “A formação
inicial dos professores em cursos de licenciatura, aliás, cada vez menos
procurados pelos jovens, é ainda feita como se não existissem conhecimentos
didáticos específicos, de que os graduandos precisam se apropriar para iniciar
sua trajetória profissional razoavelmente atualizados”, afirma Célia. “Embora a
didática da matemática seja uma disciplina antiga, dos anos 1980, na França,
nós temos poucos projetos de formação aqui no Brasil sobre o assunto”,
acrescenta Priscila.
Assim, políticas de apoio e incentivo a jovens que
tenham real interesse em cursar licenciaturas em matemática, oferecendo bolsas
e acompanhando seu desempenho, são bastante desejáveis. “Se hoje temos
problemas com professores com formação insuficiente em breve não teremos nem
professores para ensinar matemática”. Além disso, diz Célia, “é preciso
investir fortemente nos formadores de professores, tanto nos que atuam na
formação inicial como naqueles que atuam na formação continuada. Os
profissionais que estão realizando esse trabalho, muitas vezes, estão bastante
desatualizados”, aponta.
Origens para as dificuldades
De acordo com os dados da Prova Brasil e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), na última década tem ocorrido uma melhora dos percentuais de alunos com aprendizado adequado de matemática no 5º ano do Ensino Fundamental. Porém, a proporção de estudantes que aprenderam o que deveriam saber ao fim do Ensino Fundamental e do Médio permanece estagnada há uma década.
De acordo com os dados da Prova Brasil e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), na última década tem ocorrido uma melhora dos percentuais de alunos com aprendizado adequado de matemática no 5º ano do Ensino Fundamental. Porém, a proporção de estudantes que aprenderam o que deveriam saber ao fim do Ensino Fundamental e do Médio permanece estagnada há uma década.
A queda no desempenho dos estudantes com o passar
dos anos na trajetória escolar, na visão da professora da PUC-SP, pode ser
atribuída ao modo como a disciplina é lecionada. “O desinteresse aparece quando
as aulas são baseadas na apresentação de regras e procedimentos sem fim, que
precisam ser exaustivamente repetidos para aprender o que não se sabe bem o que
é. Isso explica, em certa medida, um fato relatado por muitas escolas de que as
crianças gostam de matemática até o 5º ano do Ensino Fundamental e depois
perdem completamente o interesse”, analisa.
Não há milagres
Célia afirma ainda que muitas “soluções milagrosas” são divulgadas para atrair o interesse dos alunos e, talvez, garantir que aprendam, como a utilização de material concreto e situações do cotidiano, realização de jogos e exploração de tecnologias, mas, na opinião da pesquisadora, elas não enfrentam a questão em sua gravidade. “Essas recomendações podem ser interessantes, mas tudo depende de como são implementadas. Para usá-las em benefício das aprendizagens dos alunos é preciso que o professor conheça bem os pressupostos que as apoiam, com que objetivos realizá-las, em que momento, com que possíveis intervenções.”
Célia afirma ainda que muitas “soluções milagrosas” são divulgadas para atrair o interesse dos alunos e, talvez, garantir que aprendam, como a utilização de material concreto e situações do cotidiano, realização de jogos e exploração de tecnologias, mas, na opinião da pesquisadora, elas não enfrentam a questão em sua gravidade. “Essas recomendações podem ser interessantes, mas tudo depende de como são implementadas. Para usá-las em benefício das aprendizagens dos alunos é preciso que o professor conheça bem os pressupostos que as apoiam, com que objetivos realizá-las, em que momento, com que possíveis intervenções.”
Para ela, as ações que dão resultados são as que se
baseiam nas premissas de que qualquer criança ou jovem é capaz de aprender
matemática. “É preciso assumir que o professor é ator fundamental no processo
de aprendizagem e que não pode ser substituído por qualquer outro recurso”,
afirma.
Um bom professor de matemática consegue ouvir seus
alunos, planejar aulas a partir daquilo que eles constroem, sem desconsiderar o
que é específico do conteúdo e sem torná-lo uma coisa que não é, aponta
Priscila. “O docente deve propor situações em que os estudantes coloquem em
ação o que eles pensam, para assim poder trabalhar questões que vão se tornando
mais complexas. Se isso não for feito, eles não atribuem significado ao
conteúdo, e por isso acham a disciplina difícil.”
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